Consórcio vs Financiamento: Comparei os Dois e Isso é o Que Descobri
Uma comparação honesta entre consórcio e financiamento com números reais. Spoiler: a diferença é maior do que você imagina.
Eu passei uma tarde inteira com uma planilha aberta comparando consórcio e financiamento para um imóvel de R$ 500 mil. Os números que encontrei me impressionaram — e olha que eu já tinha uma boa noção de como juros compostos funcionam.
O que vou mostrar aqui não é “consórcio é melhor” ou “financiamento é melhor”. Depende da sua situação. Mas os números precisam estar na mesa para você decidir com clareza.
O cenário da comparação
Para a comparação fazer sentido, preciso fixar as variáveis. Vou usar um caso que é bastante comum no Brasil:
- Valor do bem: R$ 500.000 (um apartamento de 2 quartos em capitais como BH, Curitiba ou Goiânia)
- Entrada no financiamento: R$ 100.000 (20%)
- Valor financiado: R$ 400.000
- Taxa de juros do financiamento: 10,49% ao ano (média da Caixa pelo SAC em janeiro de 2025)
- Prazo do financiamento: 360 meses (30 anos)
- Valor da carta de crédito do consórcio: R$ 500.000
- Taxa de administração do consórcio: 18% (dentro da média de mercado segundo a ABAC)
- Prazo do consórcio: 200 meses (aproximadamente 16 anos e 8 meses)
Já dá para notar uma diferença importante: no financiamento, você dá R$ 100 mil de entrada. No consórcio, não tem entrada — mas você também não recebe o bem na hora.
Os números lado a lado
Financiamento (Tabela SAC)
No sistema SAC, a parcela começa mais alta e vai diminuindo. Para o cenário acima:
- Primeira parcela: aproximadamente R$ 4.590
- Última parcela: aproximadamente R$ 1.130
- Parcela média: cerca de R$ 2.860
- Total pago ao longo de 30 anos: aproximadamente R$ 1.030.000
- Somando a entrada de R$ 100 mil: R$ 1.130.000
Ou seja, para um apartamento de R$ 500 mil, você desembolsa R$ 1,13 milhão. Os juros custaram R$ 630 mil — mais do que o próprio imóvel.
Consórcio
- Parcela mensal (sem reajuste): R$ 2.950
- Total pago ao longo de 200 meses: R$ 590.000
- Não tem entrada
O custo total da taxa de administração é de R$ 90 mil. Comparado com R$ 630 mil de juros no financiamento, a diferença é de R$ 540 mil.
Eu reli esse número umas três vezes quando fiz a conta. R$ 540 mil. Dá para comprar outro apartamento com essa diferença.
Mas calma — tem nuances
Antes de sair correndo para a administradora de consórcio mais próxima, preciso ser honesto sobre o que esses números não mostram.
No financiamento, você tem o imóvel na hora. Pode morar nele, pode alugá-lo. Se estiver pagando aluguel de R$ 2.000 por mês, em 30 anos de financiamento você “deixou de gastar” R$ 720 mil em aluguel. Isso muda a conta.
No consórcio, a parcela reajusta. Se o imóvel valoriza 5% ao ano, a parcela acompanha. Aquela parcela de R$ 2.950 pode virar R$ 4.500 lá na frente. O total pago será maior que os R$ 590 mil que calculei. Por outro lado, a carta de crédito também valoriza na mesma proporção — então você não perde poder de compra.
O consórcio tem prazo menor. 200 meses contra 360. Isso significa parcelas mais altas proporcionalmente. Se comparar prazo com prazo, o financiamento daria parcelas menores (embora o custo total fosse muito maior).
Quando o financiamento ganha
Tem situações em que financiar é a melhor escolha, sem dúvida:
Quando você precisa do bem agora. Seu filho vai nascer, você precisa de um apartamento maior e não tem como esperar 3 anos por um sorteio. Financiamento resolve isso.
Quando as taxas estão baixas. Lá em 2020, a Selic bateu 2% ao ano e os bancos ofereciam financiamento imobiliário a 6,5%. Nesse cenário, a diferença de custo entre consórcio e financiamento diminui muito. Com juros baixos, financiar dói menos.
Quando você consegue amortizar antecipadamente. Se você tem disciplina e vai usando 13º, bônus e dinheiro extra para abater o saldo devedor, o custo total do financiamento despenca. Vi gente que financiou em 30 anos e quitou em 8 com amortizações agressivas.
Quando o imóvel é para renda. Se você vai comprar para alugar, financiar pode fazer sentido porque o aluguel já começa a entrar desde o primeiro mês. No consórcio, você precisa esperar a contemplação.
Quando o consórcio ganha
Quando você está planejando com antecedência. A troca de carro daqui a 3 anos, o apartamento de praia, o imóvel para quando os filhos saírem de casa. Tudo que não é urgente.
Quando os juros estão altos. Com a Selic a 12,25% (como em janeiro de 2025), as taxas de financiamento imobiliário ficam na faixa de 10% a 12% ao ano. O custo total de um financiamento nessas condições é brutal. O consórcio fica proporcionalmente muito mais barato.
Quando você quer usar FGTS para lance. Pouca gente sabe, mas em consórcio de imóvel você pode usar o FGTS para dar lance, completar o valor da carta ou amortizar parcelas. É uma forma inteligente de usar esse dinheiro que está lá rendendo menos que a inflação.
Quando você não tem entrada. Financiamento exige de 10% a 30% de entrada (dependendo do banco e do imóvel). Consórcio não exige nada — começa a pagar e pronto. Para quem não tem aquele valor inicial guardado, pode ser o único caminho viável.
Uma comparação que pouca gente faz: consórcio + investimento
Existe uma estratégia que, na minha visão, é a mais inteligente — mas exige disciplina.
Digamos que no cenário do financiamento a primeira parcela seria R$ 4.590. No consórcio, a parcela é R$ 2.950. A diferença é de R$ 1.640 por mês.
Se você aplicar essa diferença num CDB que renda 100% do CDI (que com a Selic a 12,25% dá uns 12% ao ano bruto), em 36 meses você terá acumulado cerca de R$ 70 mil. Com esse valor, pode ofertar um lance robusto e provavelmente ser contemplado.
E aí vem a sacada: depois de contemplado, você continua pagando a parcela do consórcio (R$ 2.950) e continua investindo a diferença. Ao final do plano, terá o imóvel quitado E uma reserva financeira considerável.
Eu fiz as contas completas dessa estratégia, e o resultado final é impressionante: o consorciado que investe a diferença pode terminar com o imóvel + R$ 200 mil a R$ 300 mil em investimentos, enquanto quem financiou termina só com o imóvel (e R$ 630 mil a menos no bolso).
Claro, isso exige disciplina de investir a diferença todo mês sem mexer. Conheço pessoas que fariam isso tranquilamente e outras que gastariam no primeiro mês.
O que as tabelas não capturam
Números são importantes, mas não contam a história toda.
O fator emocional do financiamento. Tem algo poderoso em pegar a chave do seu apartamento e saber que é seu. Mesmo devendo ao banco por 30 anos, a sensação de ter o imóvel é real. No consórcio, você pode esperar anos para sentir isso.
A ansiedade do sorteio. Todo mês tem assembleia. Todo mês rola aquela expectativa. E todo mês, para a maioria do grupo, vem a frustração de não ser contemplado. Depois de 24 meses sem ser sorteado, isso pesa.
A rigidez do consórcio. Quer sair? Pode, mas vai receber o dinheiro só quando o grupo encerrar (ou quando sua cota for sorteada como excluída). No financiamento, você pode vender o imóvel a qualquer momento e quitar a dívida.
A flexibilidade do financiamento. Pode amortizar, pode usar FGTS a cada 2 anos, pode portar para outro banco se encontrar taxa melhor. O consórcio é mais engessado.
Custo Efetivo Total (CET): a métrica que importa
Se você vai comparar propostas de verdade, olhe o CET — Custo Efetivo Total. No financiamento, o CET inclui juros, seguros, taxas de avaliação, IOF e tudo mais. No consórcio, inclui a taxa de administração, fundo de reserva e seguros.
Para o nosso cenário hipotético:
- CET do financiamento: algo entre 11% e 13% ao ano
- CET efetivo do consórcio: algo entre 0,8% e 1,2% ao ano (taxa de administração diluída)
A diferença é gritante. Mas lembre: o financiamento entrega o bem na hora. O consórcio, não. É como comparar delivery (caro, mas rápido) com ir ao restaurante (mais barato, mas você espera).
Minha conclusão pessoal
Depois de rodar todos esses números, eu cheguei a uma posição que talvez não agrade os dois lados: as duas opções são ferramentas legítimas que servem para situações diferentes.
Se eu precisasse de um imóvel agora, financiaria. Se pudesse planejar com 2 a 5 anos de antecedência, faria consórcio sem pensar duas vezes — e investiria a diferença.
O que eu não faria de jeito nenhum é financiar algo que não é urgente só pela pressa de ter. A conta dos juros compostos é impiedosa, e R$ 540 mil de diferença no custo total não é detalhe. É literalmente anos de trabalho.
Você não precisa acreditar no que eu digo — pega uma planilha, coloca seus números e faz a comparação. Os resultados falam por si.
Se quiser entender melhor se o consórcio faz sentido para o momento econômico atual, escrevi uma análise sobre vale a pena fazer consórcio em 2025 que pode ajudar na decisão.
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