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Vale a Pena Fazer Consórcio em 2025? Minha Análise Honesta

Com a Selic em alta e crédito caro, será que consórcio faz sentido? Analiso os cenários com dados reais e dou minha opinião.

“Vale a pena fazer consórcio?” — essa é provavelmente a pergunta que mais recebo. E a resposta honesta é: depende. Mas “depende” sozinho não ajuda ninguém, então vou fazer o que deveria ser feito: analisar o cenário de 2025 com números e contexto para que você tome sua própria decisão.

O cenário econômico de 2025

Vamos ao que interessa. Em janeiro de 2025, o Copom elevou a Selic para 12,25% ao ano, e o mercado projeta que ela pode chegar a 13% ou até 14% ao longo do ano. Inflação rodando na casa dos 4,5% a 5%, acima do centro da meta.

O que isso significa na prática? Crédito caro. Muito caro.

Um financiamento imobiliário que em 2020 saía a 6,5% ao ano agora está na faixa de 10% a 12%. Financiamento de veículo? Fácil encontrar taxas acima de 1,5% ao mês — que equivalem a quase 20% ao ano.

E é exatamente nesse cenário que o consórcio se torna mais atrativo. Enquanto os juros do financiamento sobem junto com a Selic, a taxa de administração do consórcio foi definida lá atrás, no contrato. Ela não muda com a economia. Um consórcio de imóvel com taxa de 18% sobre o crédito distribuída em 200 meses continua custando os mesmos 18%, não importa se a Selic está em 2% ou 15%.

Os números do setor dão algumas pistas

Segundo a ABAC, o setor de consórcios bateu recorde em 2024: foram 4,34 milhões de novas cotas vendidas, um crescimento de 12,4% em relação a 2023. O total de participantes ativos ultrapassou 10,5 milhões.

Esses números dizem algo: quando o crédito encarece, as pessoas migram para o consórcio. Não é coincidência. Em 2020 e 2021, com a Selic lá embaixo, o crescimento do consórcio foi mais modesto. Agora, com juros nas alturas, virou a bola da vez.

Mas popularidade não é sinônimo de boa decisão. Muita gente entrou em consórcio sem entender como funciona e se arrependeu depois. A pergunta certa não é “consórcio está na moda?”, mas sim “consórcio faz sentido para a minha situação?”.

Cenário 1: Você quer comprar um imóvel

Na minha visão, este é o cenário onde o consórcio faz mais sentido em 2025.

Fiz uma conta rápida: para uma carta de crédito de R$ 400 mil em um consórcio de imóvel com taxa de administração de 17% e prazo de 180 meses, a parcela mensal fica em torno de R$ 2.600 (antes dos reajustes anuais pelo INCC).

O mesmo valor financiado pela Caixa, com taxa de 10,49% ao ano pelo SAC e prazo de 360 meses, tem primeira parcela de R$ 3.700 — e o total pago ao final ultrapassa R$ 850 mil.

No consórcio, o total pago fica em torno de R$ 468 mil. Diferença de quase R$ 400 mil.

Agora, se você já tem um terreno e quer construir, o consórcio é ainda mais interessante. A carta de crédito pode ser usada para construção, e algumas administradoras permitem liberação parcelada conforme a obra avança. Você economiza nos juros e ainda constrói do seu jeito.

Cenário 2: Você quer trocar de carro

Para veículos, a análise muda um pouco. Carros depreciam. Um carro de R$ 100 mil hoje vale R$ 70 mil daqui a 3 anos. Então, diferente do imóvel, não existe a valorização do bem ao longo do tempo.

Dito isso, os juros de financiamento de veículo são absurdos. Bancos como Santander e Bradesco estão praticando taxas de 1,3% a 1,8% ao mês, que dão de 17% a 24% ao ano. Financiar um carro de R$ 80 mil em 60 meses pode custar R$ 110 mil ou mais no total.

O consórcio de veículo com taxa de administração de 18% e prazo de 72 meses teria custo total de R$ 94.400. Menos que o financiamento, com uma diferença de R$ 15 a 20 mil.

Mas aqui vai o porém: no consórcio de carro, você pode esperar anos sem ser contemplado. E nesse tempo, o carro que você quer pode ter mudado de modelo, de preço, de tudo. Se a troca é urgente, o consórcio de veículo fica difícil de justificar.

Agora, se você está planejando a troca com calma — o carro atual ainda está bom mas você quer trocar nos próximos 2 ou 3 anos — o consórcio de veículo é uma baita alternativa.

Cenário 3: Você quer investir

Aqui eu preciso ser direto: consórcio não é investimento. Ponto.

Eu já vi gente comprando cota de consórcio contemplada achando que ia fazer um grande negócio. Já vi influenciador vendendo a ideia de “consórcio como estratégia de investimento”. Na maioria das vezes, é furada — ou no mínimo uma análise superficial.

O que existe de verdade é o seguinte: comprar uma cota já contemplada com desconto para adquirir um imóvel que gera renda de aluguel. Mas isso é uma operação imobiliária, não um investimento no consórcio em si. E exige conhecimento tanto de consórcio quanto de mercado imobiliário para fazer sentido.

Se seu objetivo é rentabilidade pura, em 2025 a renda fixa está pagando 12% a 13% ao ano. Um CDB de banco médio com liquidez diária rende mais que qualquer manobra com consórcio. Coloque o dinheiro lá e durma tranquilo.

Os riscos que ninguém te conta

Antes de decidir, você precisa ter ciência de alguns riscos:

Inadimplência do grupo. Se muitos participantes do grupo deixam de pagar, o ritmo de contemplação pode diminuir. A administradora usa o fundo de reserva, mas se a inadimplência for muito alta, pode haver atrasos nas contemplações. Grupos menores são mais vulneráveis a isso.

Reajuste das parcelas. No consórcio de imóvel, a parcela reajusta pelo INCC (Índice Nacional de Custo da Construção). Em 2024, o INCC acumulou alta de 6,02%. Isso significa que sua parcela de R$ 2.600 pode virar R$ 2.756 no ano seguinte. Ao longo de 15 anos, esse efeito é significativo.

Dificuldade de saída. Desistir de um consórcio é possível, mas caro. Você recebe o que pagou de volta (descontadas multas e taxa de administração já utilizada), porém só quando o grupo encerrar ou sua cota for sorteada como excluída. Pode demorar anos.

Administradoras problemáticas. Nem toda administradora é séria. Antes de fechar, consulte se ela é autorizada pelo BACEN e pesquise reclamações no Reclame Aqui e no Consumidor.gov.br. Administradoras com muitas reclamações sobre demora na entrega da carta de crédito ou dificuldade na desistência são um sinal vermelho.

Então, vale a pena ou não?

Minha análise para 2025, bem direta:

Vale muito a pena se você quer um imóvel, não tem pressa, tem renda estável e consegue manter a parcela por 10 a 15 anos sem sufoco. Nesse cenário, a economia comparada ao financiamento é enorme, e o momento de Selic alta torna o consórcio ainda mais competitivo.

Vale a pena com ressalvas se você quer trocar de carro nos próximos 2 a 3 anos e tem o veículo atual em bom estado. A economia existe, mas é menor que no caso de imóveis, e a espera pode ser frustrante.

Não vale a pena se você precisa do bem agora, se sua renda é instável, se está buscando investimento ou se vai apertar demais o orçamento mensal. Nesses casos, existem alternativas melhores.

O que eu faria no seu lugar

Se eu estivesse planejando comprar um imóvel em 2025 sem urgência, entraria num consórcio de 180 a 200 meses, investiria separadamente para acumular capital de lance, e tentaria antecipar a contemplação nos primeiros 24 a 36 meses.

Se precisasse do imóvel agora, financiaria — mas com a firme intenção de amortizar agressivamente usando 13º, FGTS e qualquer dinheiro extra, para reduzir o impacto dos juros altos.

Se quisesse trocar de carro sem pressa, faria consórcio de 60 a 72 meses e ficaria atento às assembleias para dar lance na hora certa.

E, acima de tudo, faria conta. Não confiaria no papo do vendedor, nem no que li na internet (incluindo este artigo). Pegaria os valores reais da proposta, colocaria na planilha e compararia com as alternativas.

A decisão financeira mais cara é a que você toma sem calcular.

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