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Consórcio ou Investir por Conta? Fiz as Contas pra Você

Será que vale mais fazer consórcio ou juntar dinheiro investindo? Simulei com Selic, CDI e poupança para dar a resposta.

Essa é, de longe, a pergunta que mais me fazem: “Rodrigo, não seria melhor eu pegar o dinheiro da parcela do consórcio e investir por conta própria?” A lógica parece imbatível — se o consórcio não rende nada, qualquer investimento que pague alguma coisa já seria melhor, certo?

Bom, eu fiz as contas. E a resposta não é tão simples quanto parece.

O cenário da simulação

Pra comparação fazer sentido, preciso definir as regras do jogo. Vou usar um exemplo com valores realistas:

Objetivo: juntar R$ 80.000 (o suficiente pra comprar um carro popular completo)

Cenário A — Consórcio:

  • Carta de crédito: R$ 80.000
  • Prazo: 72 meses
  • Taxa de administração: 20%
  • Fundo de reserva: 2%
  • Parcela mensal: R$ 1.378
  • Total pago: R$ 99.200

Cenário B — Investimento por conta própria:

  • Aporte mensal: R$ 1.378 (mesmo valor da parcela do consórcio)
  • Prazo: até acumular R$ 80.000
  • Investimentos simulados: poupança, CDB 100% CDI e Tesouro Selic

Vamos ver quanto tempo cada investimento leva pra chegar nos R$ 80 mil.

Simulação 1: Poupança

A poupança hoje rende 6,17% ao ano (0,5% ao mês + TR) quando a Selic está acima de 8,5%. Com a Selic a 14,25%, esse é o caso.

Investindo R$ 1.378 por mês na poupança:

  • Mês 12: R$ 17.072
  • Mês 24: R$ 35.257
  • Mês 36: R$ 54.648
  • Mês 48: R$ 75.347
  • Mês 50: R$ 79.645
  • Mês 51: R$ 81.530

Você atinge R$ 80 mil em aproximadamente 50 a 51 meses. Investiu cerca de R$ 70.200 do próprio bolso e os rendimentos complementaram.

Simulação 2: CDB 100% CDI

Com a Selic a 14,25%, o CDI está em torno de 14,15% ao ano. Um CDB que pague 100% do CDI rende isso, mas com desconto de IR regressivo (de 22,5% a 15% dependendo do prazo).

Considerando a alíquota média de 17,5% de IR (prazo entre 1 e 2 anos), o rendimento líquido fica em torno de 11,7% ao ano, ou aproximadamente 0,93% ao mês.

Investindo R$ 1.378 por mês:

  • Mês 12: R$ 17.596
  • Mês 24: R$ 37.207
  • Mês 36: R$ 59.113
  • Mês 44: R$ 75.438
  • Mês 46: R$ 80.104

Chega nos R$ 80 mil em aproximadamente 46 meses. Investiu R$ 63.400 do bolso.

Simulação 3: Tesouro Selic

O Tesouro Selic acompanha a taxa Selic quase integralmente. Com rendimento bruto de 14,25% ao ano e a mesma lógica de IR regressivo, o resultado é muito parecido com o CDB 100% CDI:

  • Chega nos R$ 80 mil em aproximadamente 46 a 47 meses

A diferença pro CDB é marginal. O Tesouro Selic tem a vantagem da segurança (é garantido pelo governo federal), mas pra valores abaixo de R$ 250 mil, o CDB com cobertura do FGC é igualmente seguro.

Comparativo direto

ConsórcioPoupançaCDB 100% CDITesouro Selic
Parcela/Aporte mensalR$ 1.378R$ 1.378R$ 1.378R$ 1.378
Tempo para R$ 80 mil1 a 72 meses*~51 meses~46 meses~47 meses
Total investido do bolsoR$ 99.200~R$ 70.200~R$ 63.400~R$ 64.800
Custo efetivoR$ 19.200R$ 0R$ 0R$ 0

*No consórcio, o tempo depende de quando você é contemplado. Pode ser no mês 1 (por lance ou sorteio) ou no mês 72.

Olhando a tabela, parece que investir por conta ganha de lavada. Você chega no valor mais rápido e paga menos. Então por que tanta gente faz consórcio?

O fator que a planilha não mostra: disciplina

Eu preciso ser honesto aqui. A matemática pura favorece o investimento próprio. Mas a vida real não é uma planilha.

Quantas pessoas você conhece que começaram a juntar dinheiro por conta e mantiveram a disciplina por 46 meses seguidos, sem pular nenhum aporte, sem mexer no dinheiro pra uma emergência, sem “emprestar” do fundo pra uma viagem?

Eu conheço muito poucas.

O consórcio funciona como um compromisso. A parcela vence, o boleto chega, e se você não pagar, tem consequência — multa, juros, exclusão do grupo. Esse “empurrão” forçado é o que faz muita gente finalmente conseguir acumular um valor grande.

Pesquisa do Banco Central de 2024 mostrou que 62% dos brasileiros não conseguem manter uma poupança regular por mais de 6 meses. Não é falta de capacidade financeira — é comportamento humano. O dinheiro disponível tende a ser gasto.

Outro fator: a possibilidade de contemplação antecipada

No cenário de investimento, você precisa esperar 46 a 51 meses pra ter os R$ 80 mil. Sem atalho.

No consórcio, existe a chance de ser contemplado muito antes — no primeiro mês, no terceiro, no décimo. Por sorteio, é loteria. Mas por lance, dá pra ter uma estratégia.

Se você entra no consórcio e, no terceiro mês, dá um lance de 30% (R$ 24 mil) e é contemplado, recebe R$ 80 mil tendo pago apenas R$ 28.134 (3 parcelas + lance). Sim, vai continuar pagando as parcelas restantes. Mas teve acesso ao bem 43 meses antes do que teria investindo por conta.

Essa antecipação tem valor. Se é um carro pra trabalho que vai gerar renda, por exemplo, os 43 meses de uso a mais podem compensar — e muito — o custo da taxa de administração.

E a inflação? Ela atrapalha?

Sim, e é um ponto a favor do consórcio que muita gente ignora.

No cenário de investimento, você junta R$ 80 mil em 46 meses. Mas o carro que custa R$ 80 mil hoje pode custar R$ 95 mil daqui a 46 meses, com uma inflação automotiva de 4% ao ano. Aí seus R$ 80 mil não compram mais o mesmo carro.

No consórcio, a carta de crédito é reajustada pelo índice do grupo (geralmente FIPE ou INCC pra imóveis). Se o carro subiu pra R$ 95 mil, sua carta também subiu pra R$ 95 mil. Você paga mais no total, mas o poder de compra é preservado.

Nos investimentos, você precisaria de aportes maiores ao longo do tempo pra acompanhar a valorização do bem. É factível, mas exige atenção e ajustes constantes.

Quando investir por conta ganha disparado

Tem situações em que o consórcio nem entra na conversa:

1. Você já tem parte do dinheiro. Se você tem R$ 50 mil e precisa de R$ 80 mil, investir os R$ 50 mil em CDB e aportar o restante ao longo de poucos meses é muito mais eficiente do que entrar num consórcio de 72 meses.

2. Você tem disciplina comprovada. Se você já investe regularmente há anos e nunca mexe no dinheiro, o argumento da disciplina não se aplica a você. A matemática pura é clara: investir por conta é mais barato.

3. O bem pode esperar indefinidamente. Se tanto faz comprar em 3 ou 5 anos, sem nenhuma urgência, investir dá mais flexibilidade. Você escolhe quando comprar, sem depender de sorteio ou lance.

Quando o consórcio ganha

1. Você precisa da “trava” no compromisso. Sem julgamento — a maioria das pessoas precisa. O consórcio é um contrato que te obriga a poupar. Se isso é o que faz a diferença entre comprar e não comprar o bem, o custo da taxa de administração é um preço justo pela disciplina.

2. Você pode ser contemplado cedo. Se tem recursos pra dar lance nos primeiros meses, o consórcio te dá acesso ao bem muito antes do que qualquer investimento permitiria.

3. A Selic cai. Se a Selic cair pra 9%, 8% ao ano nos próximos anos (o que já aconteceu entre 2019 e 2021), os rendimentos dos investimentos caem junto. O custo do consórcio, porém, já está travado no contrato. Nesse cenário, a diferença entre consórcio e investimento diminui bastante.

4. Imóvel com FGTS. No consórcio de imóvel, poder usar FGTS pra lance e amortização é uma vantagem que não existe no cenário de investimento puro (você não pode sacar FGTS pra investir em CDB).

Minha conclusão (e ela não é absoluta)

Se você é disciplinado, entende de investimentos e não tem pressa, investir por conta é matematicamente superior. Você economiza entre R$ 19 mil e R$ 29 mil num horizonte de 72 meses, no exemplo que simulamos.

Mas se a disciplina é um problema — e pra maioria das pessoas é — o consórcio cumpre um papel que nenhum investimento consegue: te obrigar a manter o plano. E muitas vezes, a diferença entre ter e não ter o bem é justamente essa obrigação.

Na minha visão, a pergunta certa não é “consórcio ou investimento?” — é “o que vai funcionar pra mim?”. Conhecer a si mesmo vale mais do que qualquer simulação em planilha.

Bônus: uma alternativa híbrida

Pra quem quer o melhor dos dois mundos, existe uma estratégia que eu considero bem inteligente:

  1. Entre no consórcio com a menor parcela possível
  2. Simultaneamente, invista a diferença entre o que poderia pagar e o que está pagando
  3. Use o montante investido pra dar lance quando acumular o suficiente

Assim, você tem a disciplina do consórcio, o rendimento do investimento e uma estratégia de lance planejada. É mais trabalhoso? É. Mas o resultado financeiro costuma ser melhor do que qualquer uma das opções isoladas.

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