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5 Erros que Todo Mundo Comete ao Entrar num Consórcio

Já vi muita gente se arrepender por erros básicos no consórcio. Listei os mais comuns e como evitar cada um deles.

Toda semana eu recebo mensagens de gente frustrada com consórcio. “Me enrolaram”, “não sabia que era assim”, “quero sair mas vou perder dinheiro”. E quando eu pergunto o que aconteceu, quase sempre a história cai em um dos mesmos cinco erros.

Não estou falando de azar ou de problema com a administradora. Estou falando de decisões que a pessoa tomou — ou deixou de tomar — lá no começo, quando assinou o contrato. São erros evitáveis, e é por isso que eu resolvi listar cada um deles aqui.

Erro 1: Escolher a parcela pelo valor mais baixo, sem olhar o prazo

Esse é disparado o mais comum. A pessoa vê uma parcela de R$ 450 por mês pra um carro de R$ 80 mil e pensa: “Nossa, cabe no meu bolso fácil!” Aí assina.

O que ela não olhou: o plano tem 84 meses. São 7 anos pagando parcela. E a parcela de R$ 450 é só o valor inicial — com os reajustes anuais, pode chegar a R$ 700, R$ 800 lá pelo terceiro, quarto ano.

Mas o problema maior nem é esse. É que, num plano de 84 meses, a taxa de administração diluída pode parecer baixa (tipo 0,25% ao mês), mas no total acumulado pode bater 22%, 23%. Num consórcio de R$ 80 mil, isso significa pagar R$ 18.400 só de taxa.

Se o mesmo grupo oferecesse um plano de 60 meses com parcela de R$ 630, a taxa total seria de 18% — R$ 14.400. Você paga R$ 4.000 a menos no total, e se livra do compromisso 2 anos antes.

Como evitar: Não olhe só a parcela. Olhe o custo total (parcela x número de meses) e compare com o valor da carta. A diferença é o que você paga de taxa e encargos. Faça essa conta pra diferentes prazos antes de decidir.

Erro 2: Não fazer reserva pra continuar pagando se a vida apertar

Consórcio é compromisso de longo prazo — 5, 7, 10, até 20 anos no caso de imóvel. E a vida acontece. Gente perde emprego, tem problema de saúde, precisa ajudar familiar. Quando isso acontece sem reserva financeira, o consórcio vira um peso que a pessoa não consegue carregar.

E sair do consórcio no meio do caminho dói no bolso. Dependendo do contrato:

  • Você pode ser excluído do grupo por inadimplência
  • O valor pago só é devolvido no encerramento do grupo (que pode demorar anos)
  • A devolução vem com desconto de multa contratual (geralmente 10% a 20%) e taxa de administração proporcional

Já vi caso de pessoa que pagou R$ 35 mil em parcelas, desistiu e recebeu de volta R$ 22 mil — e só depois de 3 anos. É frustrante.

Como evitar: Antes de entrar no consórcio, tenha uma reserva de emergência de pelo menos 6 meses de parcela separada. Parece muito? Pense assim: se a parcela é R$ 1.200 por mês, ter R$ 7.200 guardados te dá meio ano pra se reorganizar caso perca a renda. Isso é o mínimo.

Erro 3: Confiar cegamente no vendedor

Vou contar uma coisa que talvez incomode alguns profissionais do setor, mas que precisa ser dita: o vendedor de consórcio ganha comissão na venda. A comissão dele pode ser de 2% a 5% do valor da carta. Numa carta de R$ 300 mil (imóvel), a comissão pode chegar a R$ 15 mil.

Isso não significa que todo vendedor é desonesto — longe disso. Tem profissional sério e competente no mercado. Mas significa que existe um incentivo financeiro pra te convencer a fechar, e alguns vendedores cruzam a linha do razoável.

As promessas mais problemáticas que eu vejo:

  • “Você vai ser contemplado em até 6 meses” — impossível garantir. Sorteio é aleatório. Lance depende da concorrência do grupo. Nenhum vendedor pode prometer prazo de contemplação.

  • “A parcela não sobe muito, fica estável” — mentira. Parcela é reajustada pelo índice do grupo, todo ano. E dependendo do mercado, o reajuste pode ser significativo.

  • “Consórcio é melhor que qualquer investimento” — não é. É uma ferramenta com propósito específico. Não rende, não multiplica patrimônio.

  • “Se desistir, recebe tudo de volta rapidinho” — a devolução pode levar anos e vem com descontos pesados.

Como evitar: Nunca feche consórcio no primeiro contato. Peça a proposta por escrito, leve pra casa, leia o contrato inteiro (sim, inteiro), confira a taxa de administração total, o prazo, as regras de lance e as condições de desistência. Se o vendedor pressionar pra fechar na hora (“essa condição é só pra hoje”), é sinal vermelho.

Erro 4: Entrar sem estratégia de lance

Eu perdi a conta de quantas vezes ouvi isso: “Já tô pagando há 3 anos e nunca fui contemplado.” Quando pergunto se a pessoa já tentou dar lance, a resposta quase sempre é “não, tô esperando o sorteio.”

Esperar o sorteio é legítimo. Mas num grupo de 200 pessoas, sua chance estatística de ser sorteado em qualquer mês específico é de 0,5%. Em 36 meses, a probabilidade acumulada de ter sido sorteado ao menos uma vez fica em torno de 16%. Ou seja: em 3 anos, há 84% de chance de não ter sido sorteado ainda.

O lance é a ferramenta que te dá algum controle sobre o processo. E não precisa ser um lance astronômico. Em grupos de carro, lances de 20% a 30% da carta costumam contemplar. Em imóvel, 25% a 40%.

Existem estratégias diferentes:

  • Lance fixo alto nos primeiros meses: se você tem uma reserva, oferece um lance competitivo logo no início, quando muitos participantes ainda não estão organizados pra dar lance
  • Lance embutido: usa parte da carta como lance, sem tirar dinheiro do bolso
  • Lance com FGTS (só pra imóvel): usa o saldo do FGTS, que estava rendendo míseros 3% ao ano
  • Acumular e dar lance estratégico: junta dinheiro por alguns meses e faz uma oferta forte quando identificar que o grupo tem poucos lances

Como evitar o erro: Antes de entrar no consórcio, defina sua estratégia de contemplação. Se não tem dinheiro pra lance, tudo bem — mas saiba que pode demorar. Se tem algum recurso, planeje quando e quanto vai oferecer. Converse com a administradora sobre o histórico de lances do grupo.

Erro 5: Não comparar administradoras

Sabe aquele amigo que entrou num consórcio “porque o gerente do banco ofereceu”? Ou aquele que fechou com a primeira administradora que apareceu no Google? Pois é.

As diferenças entre administradoras são significativas. Vou mostrar com exemplo. Pra uma carta de carro de R$ 80 mil em 72 meses:

AdministradoraTaxa de Adm. TotalFundo de ReservaCusto TotalParcela Mensal
Administradora A18%1,5%R$ 95.600R$ 1.328
Administradora B20%2%R$ 97.600R$ 1.356
Administradora C22%3%R$ 100.000R$ 1.389

A diferença entre a mais barata e a mais cara é de R$ 4.400. Isso dá quase 3 parcelas. E o único trabalho que você precisa ter pra economizar esse dinheiro é pesquisar.

Mas não é só taxa. Outros fatores importam:

  • Tamanho do grupo: grupos menores significam menos contemplações por mês, mas lances podem ser mais baixos. Grupos maiores contemplam mais gente, mas a concorrência no lance é maior.

  • Regras de lance: cada administradora tem suas regras. Algumas aceitam lance embutido, outras não. Algumas permitem lance com FGTS pra imóvel, outras complicam o processo.

  • Atendimento: consórcio é um relacionamento de anos. Administradora com atendimento ruim, portal online travado e demora na liberação de carta contemplada é receita pra dor de cabeça.

  • Solidez: confira se a administradora é autorizada pelo Banco Central. Parece óbvio, mas existem empresas que operam ilegalmente. A lista oficial está no site do BCB.

Como evitar: Faça orçamento com no mínimo três administradoras. Peça a proposta completa com todos os custos discriminados. Pesquise reclamações no Reclame Aqui e no Consumidor.gov.br. Pergunte a amigos e familiares que já são consorciados sobre a experiência deles.

O erro bônus: achar que consórcio resolve tudo

Esse não está na lista principal porque é mais sutil. Mas preciso mencionar.

Consórcio é uma ferramenta. Uma boa ferramenta, quando usada no contexto certo. Mas não é solução universal. Não substitui reserva de emergência. Não substitui previdência. Não é investimento. Não resolve problema de endividamento.

Já vi gente com cartão de crédito estourado, cheque especial ativo e dívida no carnê da loja entrando em consórcio “pra organizar as finanças”. Não funciona assim. Antes de assumir um compromisso de longo prazo, a casa precisa estar em ordem. Quite as dívidas caras primeiro. Monte uma reserva básica. Depois, com o orçamento saudável, aí sim considere o consórcio.

Fechando: consórcio não é vilão

Eu não quero que você saia daqui achando que consórcio é cilada. Não é. Milhões de brasileiros realizaram sonhos — casa própria, carro novo, moto pro trabalho — através do consórcio. É um sistema que funciona e que tem regulamentação séria no Brasil.

O que transforma uma boa ferramenta em experiência ruim são decisões precipitadas. Ler o contrato, comparar opções, ter reserva e entrar com estratégia são coisas simples que fazem toda a diferença.

Se você já cometeu algum desses erros, não se desespere. Converse com a administradora, entenda suas opções e, se possível, ajuste a rota. E se está pensando em entrar agora, use essa lista como checklist antes de assinar qualquer coisa.

Informação é o melhor lance que você pode dar.

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