Como Funciona o Lance no Consórcio (e Estratégias que Funcionam)
O lance é a principal forma de antecipar sua contemplação. Explico os tipos de lance, como calcular e as estratégias mais usadas.
Quando eu comecei a estudar consórcio, a parte do lance era a que mais me confundia. “Lance livre”, “lance fixo”, “lance embutido”… parecia um jogo com regras que ninguém se preocupava em explicar direito.
Depois de conversar com gente que trabalha em administradoras e com consorciados que já foram contemplados por lance, a coisa ficou clara. E é mais simples do que parece.
O que é o lance, afinal
Lance é uma oferta de antecipação de parcelas que você faz para tentar ser contemplado na assembleia. Funciona como um leilão às cegas: cada participante que quer tentar registra seu lance antes da assembleia, sem saber o que os outros ofertaram. Quem deu o maior lance (em percentual do crédito), leva.
O dinheiro do lance não é “por fora”. Ele é usado para abater parcelas futuras do seu plano. Ou seja, se você deu um lance de R$ 50 mil num consórcio de R$ 200 mil, essas R$ 50 mil vão quitar as últimas parcelas do seu plano. Você continua pagando as parcelas mensais normalmente, mas o plano termina antes.
Uma coisa que muita gente confunde: lance não é entrada. No financiamento, a entrada reduz o valor da parcela. No consórcio, o lance reduz a quantidade de parcelas, não o valor delas.
Os tipos de lance
Lance livre
É o mais comum. Você oferta o valor que quiser, geralmente a partir de um mínimo definido pela administradora (algo como 10% do crédito). Quem dá o maior percentual leva.
Na prática, o percentual vencedor varia muito entre grupos e administradoras. Em consórcios de imóvel, tenho visto lances vencedores na faixa de 25% a 40% do crédito — ou seja, para uma carta de R$ 500 mil, estamos falando de R$ 125 mil a R$ 200 mil. Em consórcio de veículo, os lances costumam ser menores em valor absoluto, mas o percentual pode ser parecido ou até maior.
Lance fixo
Algumas administradoras oferecem assembleias com lance fixo, onde o percentual é pré-determinado — por exemplo, 30% do crédito. Todos que ofertam esse valor participam de um sorteio entre eles. Se ninguém ofertar, não há contemplação por lance fixo naquela assembleia.
A vantagem do lance fixo é a previsibilidade: você sabe exatamente quanto precisa ter. A desvantagem é que, em grupos grandes, pode ter muita gente ofertando o mesmo valor e a decisão volta a ser por sorte.
Lance embutido
Aqui é onde fica interessante — e polêmico. No lance embutido, parte do valor da carta de crédito é usada como lance. Funciona assim: você não precisa ter o dinheiro em mãos. A administradora “reserva” uma parte da sua carta de crédito como lance e, se você for contemplado, recebe a carta de crédito com desconto desse valor.
Exemplo: carta de crédito de R$ 200 mil, lance embutido de 25%. Você é contemplado e recebe R$ 150 mil de crédito (os outros R$ 50 mil foram usados como lance para quitar parcelas futuras).
Parece mágico, mas tem um custo: você recebe menos crédito. Se o bem que você quer custa R$ 200 mil, vai precisar completar os R$ 50 mil do próprio bolso. Por isso, o lance embutido funciona melhor quando o bem que você quer custa menos que a carta, ou quando você tem uma reserva para complementar.
Nem todas as administradoras oferecem lance embutido, e as que oferecem geralmente limitam o percentual máximo (20% a 30% do crédito).
Lance com FGTS
Em consórcio de imóvel, você pode usar o saldo do FGTS para dar lance. As regras são as mesmas do uso do FGTS para moradia: o imóvel precisa ser residencial, você não pode ter outro imóvel no mesmo município, entre outros critérios.
Essa é, na minha opinião, uma das melhores estratégias disponíveis. O FGTS rende 3% ao ano + TR — muito abaixo da inflação. Usar esse dinheiro para antecipar a contemplação é dar uma utilidade real para um recurso que está perdendo valor parado.
Estratégias que funcionam de verdade
Estratégia 1: Acumular e esperar o momento certo
Em vez de dar lance na primeira assembleia, vá acumulando dinheiro separadamente. Invista num CDB ou Tesouro Selic (que em 2025 está rendendo mais de 12% ao ano) e espere o grupo “amadurecer”.
Nos primeiros meses de um grupo, todo mundo está empolgado e os lances são altos. Conforme os meses passam, quem queria ser contemplado rápido já foi, e os lances vencedores tendem a cair. Vi casos de grupos de imóvel onde o lance vencedor caiu de 35% nos primeiros 6 meses para 20% depois de 2 anos.
Enquanto espera, seu dinheiro está rendendo. Se você juntou R$ 80 mil investidos a 12% ao ano por 18 meses, tem quase R$ 95 mil. Pode ser que um lance de R$ 95 mil, que representaria algo como 19% numa carta de R$ 500 mil, seja suficiente para contemplação nesse momento.
Estratégia 2: Lance embutido + complemento
Se você não tem muito dinheiro acumulado, mas tem uma reserva razoável, pode combinar lance embutido com recursos próprios.
Digamos que a carta é de R$ 300 mil. Você oferta um lance embutido de 20% (R$ 60 mil) e complementa com R$ 30 mil do bolso, totalizando um lance de 30% (R$ 90 mil). Você recebe a carta de R$ 240 mil (descontado o embutido) e ainda antecipou parcelas.
Se o imóvel que você quer custa R$ 280 mil, os R$ 240 mil da carta cobrem a maior parte, e você negocia o restante direto com o vendedor.
Estratégia 3: FGTS como arma secreta
Muitos consorciados esquecem do FGTS ou não sabem que podem usá-lo como lance. Se você tem R$ 40 mil de FGTS parados, pode usar como lance em consórcio de imóvel. Dependendo do grupo, R$ 40 mil podem ser suficientes para contemplação.
A tramitação leva um pouco mais de tempo (a administradora precisa solicitar o saque à Caixa), mas funciona. Conheço gente que usou FGTS como lance no mês que completou 3 anos de carteira assinada e foi contemplado logo.
Estratégia 4: Trocar o grupo
Se depois de vários meses o lance médio do seu grupo está muito alto e você percebe que não vai conseguir competir, uma alternativa é transferir sua cota para um grupo com lance médio menor. Nem todas as administradoras permitem isso, e pode ter custos, mas é uma opção que pouca gente conhece.
Quanto ofertar de lance: a conta que você precisa fazer
A matemática aqui é mais simples do que parece. Você precisa responder três perguntas:
1. Quanto eu tenho disponível? Some dinheiro em conta, investimentos que pode resgatar, FGTS (se for imóvel). Esse é seu teto.
2. Qual o lance médio vencedor do meu grupo? Peça o histórico de assembleias para a administradora. Toda administradora séria disponibiliza essa informação. Se os últimos 6 lances vencedores foram de 22%, 25%, 20%, 28%, 23% e 21%, a média está em torno de 23%.
3. Vale a pena para mim ser contemplado agora? Se a resposta for sim e seu teto é maior que a média, oferte algo ligeiramente acima da média — uns 25% a 27% no exemplo acima. Não precisa dar o máximo que tem.
Um erro comum é ofertar muito mais que o necessário. Lance de 50% quando a média é 25% significa que você antecipou parcelas além do necessário. Sim, seu plano termina antes, mas aquele dinheiro extra poderia estar rendendo investido.
Cuidados com o lance
Cuidado 1: Confira se o lance é sobre o valor do crédito ou sobre o saldo devedor. Essa diferença muda completamente o cálculo. Lance de 20% sobre R$ 500 mil (crédito) é R$ 100 mil. Lance de 20% sobre R$ 450 mil (saldo devedor) é R$ 90 mil.
Cuidado 2: Lance não garante contemplação. Se alguém ofertar mais, você não é contemplado e o dinheiro volta para você (ou fica disponível para a próxima assembleia, dependendo da administradora).
Cuidado 3: Não use sua reserva de emergência como lance. Sei que a tentação é grande, mas se um imprevisto acontecer e você não tiver reserva, vai precisar sair do consórcio — e aí perde mais.
Cuidado 4: Lance embutido reduz seu poder de compra. Parece óbvio, mas muita gente esquece. Se a carta é de R$ 200 mil e o lance embutido foi de R$ 40 mil, você só tem R$ 160 mil para comprar. Tenha certeza de que isso é suficiente para o que você quer.
Resumo prático
Se eu tivesse que condensar tudo em um passo a passo:
- Antes de tudo, entenda qual tipo de lance seu grupo aceita (livre, fixo, embutido, FGTS)
- Peça o histórico de lances vencedores das últimas 6 a 12 assembleias
- Acumule o dinheiro investido enquanto espera o momento certo — não tenha pressa
- Quando o lance médio estiver num patamar que cabe no seu bolso, vá com tudo
- Oferte um percentual ligeiramente acima da média recente, não muito mais
- Tenha um plano B caso não seja contemplado naquela assembleia
O lance é o mecanismo que transforma o consórcio de “pode demorar 15 anos” para “pode acontecer em 1 ou 2 anos”. Mas, como tudo em finanças, funciona melhor quando você faz a lição de casa antes.
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